O GLP-1 tem ultimamente recebido uma grande atenção pelo seu papel na regulação do apetite, metabolismo e controlo glicémico. A literatura científica tem vindo a destacar a sua relevância na gestão da diabetes tipo 2 e do peso corporal, sendo a sua modulação uma estratégia emergente na prática clínica. É assim pertinente apresentar este estudo que teve como objetivo examinar o papel do GLP-1 na atividade hipoglicémica do Melão amargo [n. bot. Momordica charantia L., Bitter gourd (ENG)].
Em resposta à ingestão de alimentos, as células enteroendócrinas na mucosa intestinal libertam hormonas que podem estimular a secreção de insulina do pâncreas e, assim, reduzir a glicose no sangue. Isso é conhecido como efeito incretina e duas dessas hormonas, o GLP-1 e o GIP, foram identificadas como incretinas.
A resposta secretora de insulina às incretinas é responsável por, pelo menos, 50% da insulina total segregada após a glicose oral. Apesar de a falta de secreção ou a depuração mais rápida de incretina não serem fatores patogénicos na diabetes, a GLP-1 tornou-se um alvo molecular para terapêuticas de diabetes mellitus tipo 2 (DM tipo 2) uma vez que a sua atividade insulinotrópica ainda está ativa nesses pacientes, mas não a da GIP.
A biologia do GLP-1 está amplamente revista. Esta hormona endócrina é produzida e segregada nas células L enteroendócrinas e as suas principais funções fisiológicas incluem: (1) a estimulação da secreção de insulina dependente de glicose das células 𝛽 pancreáticas, (2) estimulação da biossíntese de insulina e sensibilidade à insulina, (3) aumento da proliferação de células 𝛽 pancreáticas e proteção contra apoptose, (4) inibição da secreção de glucagon e esvaziamento gástrico e (5) controlo do apetite.
A hipótese colocada pelos autores de que o Melão amargo (MA) pode exercer um efeito incretina foi apoiada por dados obtidos neste estudo. In vitro, a secreção de GLP-1 em STC-1, uma linhagem de células enteroendócrinas murinas, foi estimulada de forma dose-dependente pelo extrato aquoso de Melão amargo e suas frações e por uma fração daquela planta rica em compostos amargos. Essa estimulação foi parcialmente inibida por probenecida, um inibidor do receptor do sabor amargo, e por U-73122, um inibidor da fosfolipase C𝛽2. Estes resultados sugerem que a estimulação pode envolver, pelo menos, em parte, certos receptores do sabor amargo e/ou a via de sinalização PLC𝛽2. Dois triterpenoides tipo cucurbitacina isolados também do MA mostraram eficácia relativamente alta na estimulação. In vivo, ratinhos alimentados com MA apresentaram um índice insulinogénico mais alto num teste de tolerância à glicose oral. Uma dose oral única ou o pré-tratamento com o extrato aquoso de MA melhoraram significativamente a tolerância à glicose intraperitoneal. Uma dose oral única do extrato aquoso de MA diminuiu significativamente a glicose e aumentou a insulina e o GLP-1 no soro após 30 min. Este efeito hipoglicémico agudo do extrato aquoso de Melão amargo foi abolido pelo pré-tratamento com exendina-9, um antagonista do receptor GLP-1.
Os dados obtidos fornecem evidência de que o Melão amargo estimula a secreção de GLP-1, o que contribuirá, pelo menos em parte, para a ação antidiabética do Melão amargo através do efeito incretina.